Biografia

Crianças são más e adultos usam características físicas para se referirem uns aos outros.

Crianças são apelidadas desde sempre por serem gordas demais, ou por serem magras demais, ou por usarem óculos, ou aparelho no dente, ou por ser nerd, ou por ser burro, enfim, nada satisfaz. Sorte da criança bonita, se você foi uma delas, erga as mãos aos céus. Se não foi, junte-se ao time.

Eu era uma criança que tinha todas as características físicas possíveis e imagináveis para ganhar apelidos, mas como isso exigia muito esforço, eles se atentaram apenas no que não tinha conserto, o nariz.

Até a 2ª série do ensino fundamental, eu era a criança mais alta da sala. Mais alta até do que os meninos. Tipo um monstro. Na pré-escola era mais lamentável. Era uma classe muito pequena, éramos 5 crianças, apenas um menino. As meninas eram todas pequenininhas, bonitinhas, usavam rosa e eram pequenas. Eu era grande, gorda e meu pijama era masculino, porque para o meu tamanho, não tinha pijama feminino na promoção. Conclusão, enquanto minha irmã vestia um ursinho rosa pra dormir, no meu peito vinha o rosto do Michael Jordan estampado. Claro que eu era excluída, e para ficar do tamanho da maioria, eu me encolhia, e ficava corcunda.

Mais ou menos na 5ª série, quando há uma mistura da maldade infantil com os hormônios pré adolescentes, eu descobri que meu nariz era grande. Já parei por hooooooras na frente do espelho tentando enxergar o que os meninos tanto falavam, e eu juro que se eu não me olhasse de perfil, não via problema nenhum. Era nariguda, narigoboto, tucano, e mais delicadezas como essas. Quando me mudei para o interior de SP passei a ser chamada de narizuda, mesmo que quem me chamasse fosse analfabeto, eu continuava me importando.

As piadas começaram dentro de casa também: meu pai, meus tios e avós, também começaram com brincadeiras sobre meu nariz. Meu primeiro namorado insistia para que eu fizesse uma plástica, eu morria de medo, dizia que podia piorar. Segundo ele, era impossível ficar pior.

Entrei na faculdade, no mercado de trabalho e pois bem, como estava me relacionando com pessoas maduras, eu seria eu mesma, não um amontoado de características físicas. É… não. Um amigo da faculdade ao explicar para um amigo dele, que podia me conhecer. Quem eu era:
– Você conhece a Cássia?
– Cássia… hum, não.
– Conhece sim… uma nariguda que fez integração no mesmo dia que você.
– Ahhhhhh, eu sei quem é.

Esse meu amigo é da mesma família que os rinocerontes, cheio de sutilezas, me contou. Foi aí que eu cansei de ter meu nariz como ponto de referência. Namorado e sua família ainda faziam piadas com ele. Depois que eu resolvi procurar um cirurgião plástico, ele resolveu parar. Pois é. Foram 26 anos nas costas e pela primeira vez na vida, eu resolvi que eu queria apelar para cirurgia. Juntei a coragem, levei o namorado a tiracolo e fomos atrás do mágico médico.

O que eu suspeitava também se confirmou. Não é só uma questão estética. Tem um problema de saúde junto. A cartilagem das narinas estão no lugar errado. Então minha narina não tem sustentação, o que faz com que eu não respire direito.

Já pensando no problema de saúde, imaginei que o convênio pagaria a maior parte, o problema é que não cobre na-da. São mais ou menos R$ 9.000 entre equipe médica, anestesista e despesas hospitalares. Sendo a parte do médico podendo ser dividida em até 5 vezes. Querido leitor, sou estagiária e pago aluguel, sabe quando eu vou conseguir juntar essa grana? No dia que a cirurgia custar R$ 27.000. Eu pobre, família pobre, empréstimos na atual fase da vida não são muito considerados, ainda estou pensando no que fazer e como se trata da minha saúde, não vou escolher um médico pelo baixo preço que ele cobra.

Pensei muito e muito e decidi que eu quero mesmo fazer isso, não importa quanto tempo, mais, eu precise esperar. Perguntei para o filhote de rinoceronte se mesmo com o nariz relativamente menor, se ele continuaria a encher meu saco e ele disse que sim. Cheguei a pensar que então não adiantaria de nada eu operar, dai eu pensei e me enchi de palavras bonitas do tipo como: o que importa é o futuro.

(obs: aceito doações sugestões de como conseguir esse dinheiro sem envolver pagamentos por drogas ou sexo)

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3 comentários

  1. Morro de medo de fazer cirurgias! Tenho uma hostira bizarra com uma cirurgia que tive que fazer no olho… A anestesia nao pegou! Imagina? Te conto mais detalhes, se voce nao quiser dormir a noite… hahahaha

    Bom, ja vi em outro post q voce fez a cirurgia… Curiosa pra ver o antes e o depois.. =)

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